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Assembleia de Deus quer punir membros de esquerda

A principal convenção das Assembleias de Deus em São Paulo, liderada pelo pastor José Wellington Bezerra da Costa, apresentou nesta terça-feira uma resolução para punir pastores que “defendam, pratiquem ou apoiem” pautas associadas pela igreja à esquerda. A resolução foi aprovada em uma reunião de dirigentes durante a 49ª Assembleia Geral Ordinária da Confradesp (Convenção Fraternal das Assembleias de Deus de São Paulo). Pouco antes, o presidente Jair Bolsonaro (PL) havia participado de um culto para os fiéis presentes à assembleia geral, conduzido pelo Ministério do Belém.

A resolução, sob o título “Carta convencional do plenário da 49ª Assembleia Geral da Confradesp”, associa o “posicionamento de esquerda” a uma “cosmovisão contrária ao Evangelho e aos preceitos éticos e morais defendidos pela Assembleia de Deus”, e atribui a este campo político pautas como a “desconstrução da família tradicional”, a “legalização total do aborto” e a “erotização das crianças”. Também faz menções a uma suposta “censura à liberdade religiosa”, argumento falso já usado por pastores alinhados ao bolsonarismo, como o deputado federal Marco Feliciano (PL-SP), em ataques contra o ex-presidente Lula (PT).

A carta, além de manifestar contrariedade com essas posições, diz que a Assembleia de Deus “não admitirá em seus quadros ministros que defendam, pratiquem ou apoiem, por quaisquer meios, ideologias contrárias (…) aos princípios morais e éticos da Confradesp”. “Os ministros que comprovadamente defenderem pautas de esquerda dentro da cosmovisão marxista serão passíveis de representação perante o Conselho de Ética e Disiciplina”, diz o documento lido e apoiado pelos dirigentes da convenção.

Gravações da reunião em que a resolução foi aprovada, cujo conteúdo foi publicado pelo jornal “Folha de S. Paulo” e às quais O GLOBO teve acesso, mostram que um dos objetivos dos participantes era marcar posição contra Lula, adversário de Bolsonaro no segundo turno. Após a leitura da resolução, um dos pastores convidados a opinar sobre o texto disse que desejava “cooperar com os companheiros que trataram sobre o tema da absolvição do senhor Luiz Inácio Lula da Silva”, argumentando que as anulações de sentenças contra o petista na Lava-Jato não se enquadrariam em “nenhuma das hipóteses” previstas pelo Código Penal para considerar que alguém foi absolvido.

O mesmo pastor afirmou ainda que “todas as religiões demonistas estão dando apoio expresso a esse candidato que se apresenta a estar competindo agora no segundo turno com o presidente Bolsonaro”, e pediu a inclusão desses dois pontos na carta. Sem se referir a menções específicas a Lula, um representante da Comissão Política da Confradesp respondeu que “não seria aconselhável a inclusão de religiões de matriz africana” na carta, por atrair “uma discussão muito ampla sem saber qual será o desdobramento”, e sugeriu a manutenção do texto como havia sido lido.

Ao longo dos debates, dirigentes da Confradesp apresentaram receio em diferentes momentos de que questões ali discutidas fossem levadas a público. Em pelo menos duas ocasiões houve orientações aos pastores presentes para que os telefones celulares não fossem usados, e que “se estiverem gravando, desliguem o aparelho”. Após ser aprovada a resolução, a Mesa Diretora da assembleia geral manifestou dúvidas se “convém ou não convém” divulgar o conteúdo da carta, mas foi orientada por representantes da Comissão Política de que o compartilhamento do conteúdo seria “pertinente, inclusive servindo de parâmetro” para outras igrejas.